A selfie com a Rainha Letizia

letizia

O que mais me agrada não é ver uma selfie bem disposta de duas miúdas com a recém-Rainha de Espanha à saída do cinema. Também não é a informalidade da Rainha, única pele em que parece que se sente confortável. Muito menos é sentir que as imagens que tenho visto de Letizia-Rainha estão a anos-luz das imagens de Letizia-candidata-a, não mais formais como esperava mas precisamente mais verdadeiramente-descontraída, como se agora é que não devesse nada a ninguém [posso estar enganada, mas gosto de pensar que é isto].

O que mais me agrada é ver aquela mão descontraída por cima do ombro da miúda do meio. E não há teoria mirabolante que consiga desconstruir o que ali está.

 

Daquilo da PACC – Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades

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Não sei qual é a vossa profissão. A vossa ocupação. A etapa em que estão da vida. Mas façamos este exercício em conjunto.

1) Quantas faturas pediram com o vosso número de contribuinte? E quantos automóveis ganharam até agora? Um nome numa tômbola é um nome numa tômbola é um nome numa tômbola. Não é garantia de subsídio de almoço e muito menos de férias ou natal.

2) Estando a alínea anterior clara, imaginem então que, numa realidade alternativa, se encontram a estudar. Pode ser no 3º ano da universidade. Mas porque a vossa média até esta altura é de 11,44 e não de 11,5 como uma lei diz que devia ser, são forçados agora a fazer um exame* se querem passar para o 4º ano. Imaginem que a estrutura de construção do curso nessa tal realidade alternativa não vos garante, tenham a média que tiverem, que entrem sequer no 4º ano. Imaginem que no 4º ano há apenas 30 vagas para 6000 “candidatos a alunos”, que serão distribuídas por um complexo sistema de escolhas “uma vaga para a pessoa com melhor média”, “uma vaga para a pessoa com pior média mas que arriscou concorrer para a vaga que tinha ar de vir a dar mais trabalho”, “uma vaga para a pessoa cujo nome começa com a letra A”, “uma vaga para uma pessoa com sorte”. No fundo, quem é aprovado ganha apenas a oportunidade de ter o seu nome na tômbola (ao mais belo estilo e-fatura) para ter a hipótese – e não a garantia – de continuar a estudar, sob pena de ter mesmo de lançar às urtigas todo o investimento educativo e pedagógico feito até à data se não tiver aprovação no exame.

3) Imaginem que são assistentes sociais. Ou funcionários das finanças. Ou assistentes administrativos numa câmara. Ou fiscais. Ou cozinheiros. Ou jardineiros. Ou porteiros. Ou seguranças. Ou auxiliares. E exercem a vossa profissão há algum tempo. O tempo suficiente para sentirem que a vossa experiência enriqueceu a vossa capacidade de trabalho. O tempo suficiente para os vossos pares vos reconhecerem essa capacidade. Mas, ah!, vida danada, só trabalham há 4 anos, 11 meses e 28 dias. Não 5 anos, mas 4 anos, 11 meses e 28 dias. E uma lei é discutida, votada, passada e aplicada, forçando-vos a realizar um exame que ou vos permite continuar a poder tentar continuar na vossa profissão, mas que não vos dá qualquer atestado de residência vagal [sic], ou vos atira para as cada vez mais longas linhas do desemprego.

Ai trabalhas há 4 anos? Olha que azarito. Se fosse há 5 ainda podia pensar em deixar-te lançar currículos à parede. Agora assim, fazes exame e é se queres. Passas? Até podes não arranjar emprego mas dou-te o privilégio de poderes enviar currículos Portugal afora. Reprovas? Esquece lá Portugal e emigra.

A opinião pública divide-se mesmo porquê?

* Exame: prova perante pessoas legalmente habilitadas em que se apura a aptidão de alguém para alguma coisa.