|| comments ||

Sexta-feira, Abril 30, 2004

Por que é que... 



by Dave Hudson


... ainda não pus aqui foto do meu novo (des)penteado?

... na quarta.feira não fui trabalhar?

... nunca falta na sala de professores o Público e a revista da Oriflame?

... "namorar é a melhor coisa do mundo"?

... no Buondi, no NorteShopping, a menina tem um aviso escrito junto à caixa registadora que diz:

1. Bom dia / Boa tarde / Boa noite, em que posso ajudar?
2. Registar pedido
(muita atenção)
3. Sugerir produto
Sugerir bolo ou água
"Vai desejar..."
4. Pagamento
"São .... euros, por favor."
(NUNCA GUARDAR O DINHEIRO SEM DAR PRIMEIRO O TROCO)
5. Verifique troco
6. Despedir
"Bom dia / Boa tarde / Boa noite e bom apetite!"
...?

... estou na dúvida entre a Villa Marachique, o Brown's e o Clube Praia da Rocha?

... o Mourinho ia sozinho no carro?

... se estava tão bem no Cais de Gaia?

... falei da minha mãe no Grijó Outlet?

... na quinta.feira saí mais cedo?

... fiz Carne de Porco à Alentejana (sem a parte alentejana) ao jantar?

... já fui fazer as compras do Dia da Mãe e do Dia do Pai?

... eu e o Nuno fizemos a compra mais económica de sempre no Feira Nova?

... me arrepiei com o Dolce Caffé?

... o Kill Bill 2 do Tarantino está inconfundivelmente "gargantuano" (afinal também consegui dizer)?


|

Terça-feira, Abril 27, 2004

Quem tem medo do.... amanhã? 



"Hairdo", by Picasso

hoje fui tratar do

l
o
n
g
o

c
a
b
e
l
o



l a v e i . . .


cortei...


sequei...


e moodei.


|

Domingo, Abril 25, 2004

ad lib 

Hoje é dia ** ********* ! (censurado)

|

"Você é pago para fazer perguntas estúpidas?" 

A Loira hoje foi ao explorador do windows apagar uns documentos que tinha escrito para o pai e que achava agora dispensáveis. Nisto pensa ela: "Oh! Este documento não é meu!"..."Sys? O que é isto?! Nunca precisei, não deve fazer falta. Por isso, apaga.se!"..."Hmmm.. Windows é que é melhor não apagar...".. Resumindo e concluindo: apagou tudo no pc! "Só restaram 8 pastas...", revelou.me, entre o desabafo triste pela assumida tolice e a risota pela inocência. =) Já sabem, amigos: nunca confiem o pc a uma loura!




p.s. Falando em P.C. .... O Futebol Clube do Porto é Campeão!!!!!!!

|

Sexta-feira, Abril 23, 2004

"Esperança" - em três actos 





Acto I


(Silêncio. Um grande nada.
Compassadamente a névoa invade o negro e o silêncio. E assim, à média.luz, no espaço recolhido do Pipas, dava o relógio as oito badaladas.
Dez personagens entram em cena. O som dos seus passos abafa a música que os anunciara. A melodia das suas vozes e dos seus risos conquista aquele lugar. E o meu coração.)





(a suivre)







|

Quarta-feira, Abril 21, 2004

Urgências  



by René Magritte, La Reproduction Interdite, 1937


Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.


de "O Virgem Negra" por M. C. V.
(Mário Cesariny)



Como O'Neal dizia, "Há palavras que nos beijam"... e, acrescento eu, actos também. Oito meses findos, ganhaste.me coragem. Enfrentei a fera e meti.a na cesta. De mãos dadas.
"Não é urgente!" - o travo destas palavras nunca me soube tão bem. Uma visão do passado que não será.

"N...ã....o..........é...........u....r....g....e....n....t....e.........." E a frase percorre.me as veias, ganha força e ganha.me força, ciranda por mim dentro e, numa "explosão de átomos", me acalma a alma. Repito.a vezes sem conta, ébria mensagem, até a dissecar - o seu significado revelado. O alívio sentido na face,.... nas vozes,.... e no corpo.

|

Domingo, Abril 18, 2004

Mega Movie.Party @ Pecolândia - First Edition (Deluxe) 

Foi uma noite pacata, sem sobressaltos de maior.

- Fizemos o pudim (delicioso - mais uma confirmação do meu talento para deixar os outros cozinhar) tão tarde que para o arrefecer só mesmo com a ajuda do vento "intemporal";

- O B. e o J. atrasaram.se, o que não é nada normal. Restava.nos dar a festa por iniciada, mas sem a parte fundamental: as pizzas, claro!;

- O carro do vizinho do B. foi assaltado e foi ver (ou, no meu caso, não ver, com muita pena minha) o B. em boxers do Garfield, com botas da tropa e a empunhar um taco de golfe;

- A máquina digital não reconhecia o cdrw que comprei, por isso tive de me contentar com um cd normal (após algumas tentativas à força de convencer a máquina que o dinheiro que dei pelo cd é que tinha razão..);

- A receada discussão acerca das pizzas foi uma desilusão: nada de sangue, suor ou lágrimas. Apenas a saia rasgada da S. para a posteridade. Don't ask;

- As risadas sobraram. E as pizzas também. Se alguém quiser, é favor preencher a nota de encomenda e enviar por e.mail;

- Viu.se um lindo fogo.de.artifício no céu bracarense. Alguém que quis comemorar este evento, com certeza;

- Após um format recente, só na altura me lembrei que ainda não tinha instalado o programa para ler dvd. Pecolices! O que tem a sua piada, numa Movie.Party. Mas nem foi grande problema: numas brevíssimas 2 horitas lá conseguimos pôr o filme a andar;

- Mais uma horita a tentar descortinar, entre risos e desvios para os lados da cozinha, onde é que estava o filme no meio de tanta entrevista, documentário, banda sonora e outros que tais;

- Era, de facto, um filme com um grande andamento. De dois em dois minutos as legendas mudavam: ora coreanas, ora croatas, ora espanholas, ora portuguesas;

- O filme escolhido para dar início à Maratona de Movie.Parties foi o "Romeu e Julieta". Nunca o tinha visto, confesso, mas como já li a obra de Shakespeare, só tinha curiosidade em saber como estava montada esta nova versão. Pré.requisito único (julgava eu) era ter lencinhos de papel à mão. Fiquei surpreendida com o resultado final: uma mistura entre Pulp Fiction, Moulin Rouge e Irreversível, com um aspecto negativo: o canastrão do Romeu di Caprio. Enfim, não se pode ter tudo;

- Hora dos bolos!! (Que é como quem diz, nada a dizer desta fase, porque estava em transe gastronómico.)

- Já ouviram falar no PitasScript? E em quatro adultos - E., F., J. E V. - à volta dessa fogueira? Eu estive lá, vi, e mais não digo! (Antes que me dêem com a Bota Botilde);

- Agora resta pensar no filme, data e local para a próxima Mega (underground) Movie Party!



Errata: Onde se lê "Foi uma noite pacata, sem sobressaltos de maior.", deve pensar.se duas vezes.


De facto, "... my only love sprung from my only hate...". Assim sendo, o Óscar da noite foi para:




São servidos? =P

|

Sábado, Abril 17, 2004

Companheiro. Companhia. Acompanhada. E só. É só. 

Para Ti:

Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele É bem isso
E apesar disso eriça a pele
O sopro do coração
O sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

by Clã


....



by Montague Dawson

....

Ontem

A minha cama desperta, vaga.
Ele na praia. Água. Eu na planície Ribatejana. Céu.
Pestaneja o olhar enturpecido num turbilhão de planos.
Mas em espiral vertiginosa tudo me estranha, tudo me sonha.
Afinal Éramos juntos.


zzzZZZccCCCCRaaatttshhhhhh!!! (E um disco riscado acorda.me. Ou será o despertador do vizinho, irritantemente pontual? Mas por que é que ele desperta sempre 4 vezes por dia, com espaçamentos de 5 minutos?! E recordo.me como mudou a minha percepção da vizinhança desde que assisti a Mon Autre a ter uma conversa com um vizinho... através do esquentador! Mas adiante!)

Pois é, pois é.. Cá estávamos! Mas cedo nos pusemos a andar, que tarde de folga não é de desperdiçar nos dias de hoje! Ainda por cima com o tempo bom e quente como estava!
Traçado o destino, lá fomos. Nem imaginam: Benidorm e Algarve! Calma, devagar com o andor! Fomos ao Porto, a uma agência de viagens, saber de preços para estes destinos. Ainda não nos decidimos, mas Pecola prevenida vale por duas, e mais vale começar a procurar. (Alguém aconselha aguma coisa em especial? Sim? Não? Ajuda do público?)
A tarde foi de passeio a duas mãos pela Foz. O jantar foi no Capa Negra II com algum do pessoal (já me deviam dar uma comissão pela publicidade que lhes tenho feito, não acham?). Com as minhas inevitáveis pecolices, como foi o caso de mais uma tirada pecolo.grotesca: "O vento é intemporal". Isto a propósito de um quadro da zona ribeirinha do Porto, cuja observação nos levava a questionar a direcção do vento, já que havia peças de roupa que pendiam para um lado, outras para outro. Mas auguro uma tese de Mestrado brilhante, com base nesta frase no mínimo.. pecoliana.
Próximo destino: aeroporto Sá Carneiro, para fazer uma surpresa à Elma aka NeVaEh. Mas se ficou espantada com tanta gente que não esperava, cedo acalmou.. Pois, esquecemo.nos do chocolate! =x
Enquanto uns regressavam a Braga ainda tive tempo de ir à Madalena beber um cafezinho com Mon Autre e, aí sim, regressar.
Não sem antes cometer mais uma pecolice. É que uma nunca vem só, já se sabe. Ora atentem bem:

Nuno: Qual é o andar da Elma?
Eu: É o segundo frente! (Isto quando estou farta de saber que naquele prédio só há dois inquilinos por andar.)
Nuno: Hmmmm.. (Pausa de cinco segundos, para não se rir com mais uma pecolice..) Vou carregar no Direito.
Voz: Quem é?
Nuno: Eu!
(abrem a porta e subimos)
Eu: Tinha piada se nos tivessemos enganado!
(Pois.. já estão mesmo a imaginar, não é?)
Homem em pijama: Mas isto são horas? Estava a dormir!!! (eram 23:40)


....

Lá nos desfizemos em desculpas e aproveitámos a "nossa" porta entreaberta e, quais gauleses oprimidos, escapámos à fúria Romana.

Depois foi tempo de BA. Entre os matrecos e o som.. Desculpem, esqueçam a parte do som!... Entre os matrecos e a conversa, foi bastante agradável. O inconfundível Seabra esteve por lá (e não é que fazia aqueles trejeitos que lhe conhecemos?) e pena, pena foi não me conhecer para me ter pago um copo. Essa é que é essa! =P Mas quer acreditem quer não, não foi o centro das atenções. Só se fosse loiro, de mini.saia da largura dum cordão de sapatilha, dançasse estapafurdiamente (ui, que grande série da minha infância!) e o som ressoasse em eco na sua cabeça.. Aí talvez tivesse hipótese.. Mas olhem, felizmente que não! Antes discreto e apreciado que dominador de atenções e.. Bom, nem digo mais nada. Presumo que o espectáculo continuará para a semana no mesmo local, à mesma hora. Ainda por cima não há consumo mínimo!

Hoje

Duas mulheres longe dos respectivos namorados. Olhem que dava um bom filme.
Para afogar mágoas foi necessário um tratamento de choque intensivo, de quatro horas de compras. Azul. Laranja. Amarelo: não gosto. Hmm.. vai estar na moda, ainda acabo por comprar. Rosa. Preto. Verde.
E depois lá fomos para a Pecolândia, fazer uma experiência gastronómica: Lasanha caseira, provada e aprovada por unanimidade! Aliás, notava.se bem no travo da lasanha a arte com que ajudei a Mestre Elma, mexendo a carne enquanto cozia. Não é para todos, só vos digo!
Cafezinho no Irish (com banho cafeinado pelo meio - decididamente não me posso aproximar de líquidos!) e matrecos e Tai Pei no BA. É bom estar entre amigos, não é?

Quem lê, procura algo. Provavelmente hoje não vos dou o que querem. Como não vos dei ontem. Procurem entre as palavras, entre as cores, entre os cheiros, entre os sons. Da minha vida e da vossa. Que uma e outras dificilmente se contêm nas palavras, que sabem a pouco e cheiram a nada.

E sei que "qualquer dia anda tudo (lol) a chorar a "coitadinha"(...), mas quero deixar um recado, se bem que "já me acho demasiado lamechas para o fazer": "Tenho saudades tuas, Nuno." É só.

Amanhã há mais! Nas nossas vidas (assustadoramente) reais.


p.s. A quem quer que se reveja neste texto (ou palavras): Sim, são tuas. Para as leres proferidas por outra pessoa. E veres o quanto não fazem sentido. Obrigado por tudo. :)

|

Sexta-feira, Abril 16, 2004

Já o encontraste? 




Bem Vinda!!
|

Quinta-feira, Abril 15, 2004

Para o I-man com um beijinho 

Ontem foi noite de convívio animado. O motivo só por si já era atractivo: comemorar o aniversário do I-man.

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças."


in "Aniversário", by Fernando Pessoa; não poderia vir mais a propósito o comentário de whiteball, pensei.

Qual tertúlia dos tempos modernos, "A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos, / O aparador com muitas coisas -- doces, frutas"
, ali para os lados do New York. Tudo bem regado, porque a malta "tinha sede!". Não há dúvida que as gentes do Norte sabem receber. Ou pelo menos os bons amigos, e a nova geração, que já ultrapassou a fase "rasca" e passou à fase "rolha". Menos saudável, dirão os mais cautelosos, mas mais companheira.

Foi bonito! Os risos e os cânticos. "E se o I.man quer ser cá da malta..." As apresentações espontâneas e as palhaçadas. "E se o I.man quer ser cá da malta..." As filosofias e a cara no bolo. E o bolo na cara. "E se o I.man quer ser cá da malta..." As pausas para aconchegar o fígado e as trocas de "mimos" entre os "gajos" e as "loiras". "E se o I.man quer ser cá da malta...". O discurso e as dedicatórias ao cozinheiro, ao empregado de mesa, à X, ao Y... "E, para variar, se o I.man quer ser cá da malta.." E o Paulo? Será que ele vem? "Convívios assim é que vamos levar na memória destes tempos." Pois é, pois é.. Lá estive. Estou a descobrir um admirável mundo novo. E a aprender a voltar a acreditar nele. Ou em parte dele.

Smarkus (pub assumida) foi o local escolhido para acalmar os ânimos. Ou nem por isso, porque o dj até esteve em alta. E dissolve.se o álcool no suor da paródia. E estreitam.se os laços de amizade. E há gestos que marcam. Amizade, pintada nua. E bebe.se mais um copo. Amanhã talvez te reconheça. Ou não. O que interessa é o momento. Sem "esperanças". A diversão. Ou talvez não.

Esta é para ti, I.man. Obrigada pelo convite.


Esta é só uma noite para partilhar
qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
um lugar a salvo
Parou de correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer
Esta é uma noite para comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
um lugar para nós
onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
e se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
do que a vida foi fazendo sem nos avisar
foi-se acumulando em fotografias
em distâncias e saudades
Numa dor que nunca acaba
e faz transbordar os dias
Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como um firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo
e ter medo como dantes
de acordar a meio da noite
a precisar de um regaço

Esta é só uma noite para partilhar
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
Um lugar a salvo
Parou de correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer
Esta é uma noite para comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
Um lugar para nós
Onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
e se anseia pelo abraço de um amigo


by Mafalda Veiga


Ah! Se alguém conhecer o rapaz das fotografias, digam.lhe que as quero, por favor!


A imagem é "Radiant Baby", de Keith Haring.


|

Quarta-feira, Abril 14, 2004

Perdoem.me a Grandeza deste poema 

mas não posso deixar de o aqui colocar. Com orgulho, porque é de Fernando Pessoa. Com satisfação, porque encontro nele o remate perfeito às questões com que me tenho debatido nos últimos dias. Com prazer, porque dificilmente encontrarei palavras com que concorde e me identifique tanto.



in http://www.luciafoster.blogger.com.br


TABACARIA
(15-1-1928)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.



Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.



Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


by Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


O negrito é meu. Entendê.lo.á quem me conhece. Rever.me.á quem souber ler nas entrelinhas. Desvendará um pouco de mim quem o quiser. Peço desculpa pela "intromissão" no poema. Mas se a vida é uma viagem, por que não o há.de ser o poema? Que, como num rito de passagem, se transforme e Nos transforme. E que viva em Nós.


P.S. E nem sequer memorizei qual das chaves abria o portão..

|

Segunda-feira, Abril 12, 2004

É isto, não é, NeVaEh? 



não me lembro da fonte desta imagem.. mas não fui eu que tirei, com muita pena minha

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente
Por a alma não ter raízes
De viver de ver sòmente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu.

(by Fernando Pessoa)


Hoje recebi uma carta da Natália, melhor amiga dos tempos da universidade. Era um postal de boas festas, metade em inglês metade em português, o que me fez voltar ao passado. Ir para Coimbra foi mais que uma viagem. Foi um ganhar mas um perder também. Natália. Naty. Quero voltar a ver.te. Contar.te o que é feito de mim, saber de ti e dos outros.

Braga

Sinto.me Ex da terra.. Referem.se a mim como "ela". O sítio habitual do café mudou. Há novas estradas e novas casas. A conversa, essa, é sempre a mesma: "Quando voltas? Quando casas? Quando é que cortas o cabelo? Quando é que vais de férias? Estás diferente."...

"Na Natureza nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma.", já dizia Lavoisier. Sem dúvida.


|

Domingo, Abril 11, 2004

Day 2 relax.. 

Alegria da Criação

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha


by José Afonso

E foi assim, meus amigos, que me vi levantada e pronta para ir com o meu pai buscar a minha avó à terra. A terra... A terra que nem é minha, mas que a mim pertence. A herança deixa marcas, visíveis quando menos esperamos. Curvaceiras é o seu nome. Já ouviram falar? Entre o Entroncamento e Tomar, consta na boca do povo que já tem lugar no mapa e tudo. Indo eu indo eu a caminho de... fui tirando fotos ao que encontrava. É engraçado dar mais valor às coisas quando estamos longe, não é? Dou por mim a recordar.me: "Lá em baixo não há tanto verde." Minto. Claro que há. Estava era esquecido. Mas porquê? Por distracção ou vontade?

Olha os tanques à entrada da aldeia!! Seria por isso que quando era pequenina teimava em afirmar (e, para desgosto da minha mãe, reafirmar) que o meu sonho era ser lavadeira? Talvez, não sei.. E como estavam lindos os campos da minha avó, cheios de papoilas. =)

"Après", almoço de Páscoa. Sempre achei isto do almoço de páscoa muito "imigrante", muito "estrangeiro", muito "fora de si, fora de mim". Mas tradição é tradição e há que mantê.la, sobretudo quando vale a pena ("e a alma não é pequena"..)! Mas por que é que começo sempre a dieta na altura errada? Ai os doces, mãe, ai os doces!!!.. =)

Lagartanço na esplanada da Barquinha à beira rio com os amigos - Kat, Pedro, Tó, Dália, Tânia, Rui, Loira. A calmia e alegria da amizade de cabelos brancos, sem pressas.

Gosto. Porque gosto e basta. Está a saber.me bem este retorno a "Casa".

|

:) 

Hoje conheci a Dália do Tó. Votos de felicidades aos dois! =)

|

Sábado, Abril 10, 2004

The times they are a.changing.. Ou não. 

O despertador tocou, conforme previsto, às 10:30. "Porque é que os combóios não são como os despertadores?", pensei. Também não me retive muito nesse pensamento, que logo me levantei e conjecturei com o corpo um "é desta! é hoje que vou fazer ginástica".
Saí do quarto. A jarra de frésias com que a minha mãe me tinha dado as boas vindas estava no corredor. Sim, porque o meu nariz não se compadece com os meus gostos. "Agora já podem voltar para o quarto."
Depois da higiene matinal desci. Festas ao canito, últimas novidades relatadas à mãe: falecimento de um conhecido do grupo do Entrekosto, como foi a noite, entre outras. "Não, ainda não me apetece pequeno almoço. Onde está a chave da garagem?", denunciando a distância que me vai afastando das pequenas coisas da "Casa".
Segui em direcção à garagem, sempre na companhia do canito que, alegremente, procurava a minha atenção. "Se não queres que ele se atire a ti baixa as mãos, porque é os mimos delas que ele procura." Sorri.
Na bicicleta o meu pensamento corre. Cada vez mais depressa. Corre o tempo e fico aqui, porque estou bem. "Porque é que não damos pelo tempo passar quando estamos bem?" Setes meses.. sete (a)mares.. Olho para o conta.kilómetros. Olho para o despertador do telemóvel. Sempre certo, raramente se engana e por isso não me traz dúvidas. "Já chega por hoje." Preguiça por falta de hábito ou precaução por falta de hábito? Não me apetece conjecturar. 5 segundos de pausa....
...
...
...
...
...
Faço bem em parar. Parei.
O sol estava convidativo e, talvez romanticamente, peguei no portátil e apeteceu.me deitar na cadeira ao sol, em total harmonia com a este ambiente bucólico. E aqui estou.
|

Sexta-feira, Abril 09, 2004

Primeiro dia de férias no Entrekosto 

Na esplanada de Tancos, na companhia do Mano Chato e do meu informador de Zinco e Ligas de Zinco. Ao solinho, de mapa na mão, a pensar nos próximos destinos de passeatas com Mon Autre: desde Régua a Ofir, passando por Valença, Vigo e Algarve. Não sou esquisita. eheh. Que bem que sabe uma pausa com Kit Kat.. (pub assumidíssima). E as vossas férias, que tal?

p.s. NeVaEh, essa de fazer inveja com bolos de chocolate não vale!!! =) Diverte.te !!

|

Quarta-feira, Abril 07, 2004

FÉRIAS!!!! =) 

Note to myself: Stop the Prozac.


|

Terça-feira, Abril 06, 2004

Nem sempre quantidade é sinónimo de qualidade.. 

Foi com grande espanto que, no serão passado, senti uma pilha de livros na FNAC do NorteShopping chamar.me a atenção. Não pela pilha em si já que, felizmente, a FNAC tem sido, admitamos, uma das grandes promotoras do crescente interesse livresco e discográfico em Portugal (Ai, que altruistas que somos..). A questão dos sociolectos sempre me interessou e, nesse campo, algumas obras retratam a questão de forma brilhante. Esta obra de George Bernard Shaw é uma delas.
Mas quando observo melhor, o que vejo? Como título podia ler.se: "Pimalião". Depois de pestanejar, julguei tratar.se de um equívoco meu: afinal o título sempre fora esse e eu é que me devia informar melhor e não me deixar enganar pelas armadilhas da tradução da língua inglesa para o velho português. Mas não. Peguei no livro que estava no topo. "Top of the heap", mas nem por isso crème de la crème... A capa ostentava um historico.culturalmente orgulhoso (?) "Pimalião" (como se pode ver na foto que tirei). Por dentro, na folha que segue a capa, lá vinha de novo o título, desta vez devidamente - mas vergonhosa e tardiamente - exposto: "Pigmalião", a obra de Bernard Shaw que veio a ser inspiração para o filme "My Fair Lady".

Já Eliza dizia no filme: "You see, Mrs. Higgins, apart from the things one can pick up, the difference between a lady and a flower girl is not how she behaves, but how she is treated. I shall always be a common flower girl to Professor Higgins, because he always treats me like a common flower girl, and always will. But I know that I shall always be a lady to Colonel Pickering, because he always treats me like a lady, and always will."

Pois é, senhores.. E tratam.se assim os nossos Livros?

|

Domingo, Abril 04, 2004

Pois é, pois é.. 

E se vos desafiasse, como naqueles filmezinhos americanos em que um bando de amigos se junta para encher uma "cápsula do tempo" com objectos que melhor caracterizassem a nossa era. O que é que lá colocavam?

|

Sábado, Abril 03, 2004

Bom dia. Eu sou a Pecola Moura Guedes e este é o PecNews. 



Pec descobriu esta madrugada que o nosso Emplastro (esse mesmo, que se diz filho do Pinto da Costa - e que ainda não foi descoberto pela Linda Reis, se não estava mas era caladinho) foi descoberto pelos grandes estúdios de cinema. Estava eu a ver o "Johnny English" quando deparo com um rosto familiar. "Ó emplatro, até tu te vendes aos filmes comerciais?"


|

Sexta-feira, Abril 02, 2004

(Este não é um) Cântico Negro 

“Olha que sempre tive mau feitio..”
Costumo deixar, em jeito de cartão de visita, àqueles que se aproximam de mim. Que é o mesmo que dizer, àqueles de quem me vou aproximando, enquanto a clepsidra marca a Hora. E olho as expectativas, efervescentes, de soslaio. Trémula fico, se desiludo. Por saber a que sabe a desilusão sentida. A justiça será cega, mas a Amizade não. Cada um que siga as Suas migalhinhas, porque o trajecto não tem de ser necessariamente o mesmo para se alcançar o mesmo fim.



"«Vem por aqui» -- dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: « vem por aqui! »
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali... "


E quando a aragem me toca no ombro, fico. Gelidamente fria, a olhar o horizonte. Buscando a humanidade que não encontro. Desconforto.


"A minha glória é esta:
Criar desumanidade,
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe."


A minha mãe.. Sorrio com a sabedoria que a idade nos dá. O caminho não tem de ser diferente só porque diferente é quem o toma. Tem de ser Meu - não pode ser de outra forma. Tão simples. Querer estar com não significa ter de ser igual a. Quero Pensar o meu caminho. E dou por mim a explicá.lo – a mim, e a mim, e a vós.. Onde está a tolerância de que tanto li?


"Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos....
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: « vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Alguns Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide... tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura:
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios!

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: « vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
E um átomo a mais que se animou..."

No fundo, ”Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.” O que não implica isolamento, mas desresponsabilização do Outro. Se tomo um caminho, é Meu. E a turbulência em devir.



O poema em que o meu (des)pensamento se emaranhou desta vez é, pois claro, o "Cântico Negro", de José Régio. Esta não é uma interpretação: foi apenas um ponto de partida para uma viagem. De ideias, de auto.afirmação, se assim o entenderem. Também não é um renegar da importância dos amigos, muito pelo contrário. (Auxiliar.nos quando as asas nos falham é reconfortante, mas permitir.nos erguer por nós próprios é a verdadeira essência da Amizade, do Respeito Mútuo.) Será porventura a minha consciencialização de que os amigos não têm de ser condescentes para estar presentes. A verdade dói, doa a quem doer. Mas é, sem sombra de dúvida, uma afirmação de independência racional, com Fernando Pessoa como porta.estandarte. Seja lá do que for..

|

Quinta-feira, Abril 01, 2004

Hoje é aquele dia, não é? 




Se tudo o que há é mentira

Se tudo o que há é mentira
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.


by Fernando Pessoa




|